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A Vida tem sempre razão:
Futurismo & o Homem em Revolta

Ivo Pannaggi. Speeding Train (Treno in corsa), 1922.

Ivo Pannaggi, Speeding Train (Treno in corsa), 1922.

3,864 words

English original here

“Nós não somos apenas mais revolucionários que vocês, estamos além de sua revolução” – F. T. Marinetti

“Vocês tem que saber que o sangue não possui valor ou esplendor a não ser que tenha sido liberado da prisão das artérias pelo ferro ou fogo” – F. T. Marinetti 

Nos primeiros idas de julho de 1923, uma tempestade heróica e blasfema soprou através da planície de Carso, descendo ao vale do rio Pó. Sua velocidade ousada e energia eletrificada criaram uma atmosfera que transfixou aqueles que se atropelavam em busca da segurança de pórticos, sentindo que essa tempestade poria à prova tudo que sobreviveu a tais tempestades no passado. De fato, ao tempo em que ela alcançou as construções repletas de bandeiras da Piazza San Sepolcro em Milão a conflagração parecia rir da memória das estruturas que desabavam em seu caminho. E naquela grande e auspiciosa piazza, Giuseppe Prezzolini se afastou da janela, intencionado terminar o trabalho que sobrepujava seus sentidos extenuados.

Prezzolini, o bom jornalista e crítico literário, estava profundamente afundado em ruminações sobre perspectiva. Como, ele imaginava, poderiam aqueles que buscavam revolucionar o mundo defender algo tão amorfo e mutável quanto a perspectiva? Como poderia a revolta, de todas as coisas, proceder sem a ordem e precisão da verdade e da objetividade? Como poderiam os gemidos patéticos de uma puta amadora ser confundidos com uma sinfonia extática de prazer; ou pior, como poderiam os gritos de batalha exaltados dos novos mestres do mundo ser apenas o balido cacofônico de um amedrontado rebanho de ovelhas? Com esse problema em mente, ele digitou sua obra, “Fascismo e Futurismo”, e assim deu a seus leitores uma nova perspectiva sobre a tempestade que soprava através de sua orgulhosa e santificada morada.

Segundo a perspectiva de Prezzolini, a tempestade era violenta e incontrolável. Ela trovejava memória com os instrumentos de guerra: granadas, morteiros e bombas pareciam explodir em resposta aos impulsos perfurantes das baionetas, chicoteando com selvageria na ordeira e sensível piazza abaixo. Com cada golpe ele se encolhia mais profundamente no conforto de sua cadeira. Logo, porém, um pensamento horripilante lhe ocorreu, e ele correu para a janela. Aliviado e agradecido, ele sorriu quando viu que os símbolos esfarrapados da razão, verdade e moralidade ainda estavam de guarda contra as vis forças anárquicas que lhe fazem cerco.

Pela perspectiva de Prezzolini perspectiva, razão, verdade e moralidade eram sinônimos com a Revolução bem sucedida que havia atingido seu clímax nove meses antes, pondo a humanidade um passo mais perto da perfeição da liberdade – um direito místico e político dos homens adequadamente ligados por dever e responsabilidade ao Estado. É claro, muito havia acontecido no meio tempo e a tempestade fora de sua janela logo seria esquecida. Como ele lembrava, o fascismo e o futurismo haviam tido muito em comum um dia. Especialmente nos dias após a Grande Guerra, quando os homens de Marinetti lideraram os sindicalistas revolucionários, arditi e artistas críticos para o movimento fascista – naquela época eles até chamavam a si mesmos de “ardito-futuristi”, cada um com seu amor pelo perigo, violência e instintos renovados do homem de guerra.

Lá vieram eles, ele lembrou, se amontoando no Salão Industrial e Comercial do outro lado de sua porta. Eles estavam embriagados de Sorel, proclamando o conflito como uma “necessidade permanente” na luta contra uma existência flácida e passiva. A derrota da revolução social, um deles disse, especialmente na aurora da industrialização e da criação do homem-massa urbanizado, se devia a covardia; os sindicalistas deixaram de agir – e foram finalmente traídos pelo Movimento e pelo Partido e seus socialistas malucos.

Isso, segundo Marinetti – o líder desse bando de desajustados, era uma razão pela qual os futuristas afirmavam ser “místicos da ação”, vendo o Estado-Nação como um bastião de conservadorismo, repressão, burocracia e clericalismo: mesmo com governantes neoclássicos, pode-se dizer, o Estado é e sempre será o inimigo de homens livres – homens de fora, no além, nas regiões fronteiriças do que é permissível e “bom para o negócio”.

Enquanto tal, eles se moveriam contra o Estado e nos bandos de squadristi que quase se tornaram a ruína da Revolução. Desdenhosos da polícia, eles eram ilegais, espontâneos, muitas vezes caóticos e arbitrários – dificilmente o tipo de coisa que contribui para o estabelecimento e defesa da lei e da ordem!

Assim, esse homem em revolta perpetuamente violento, liberado de limitações morais e históricas e de deveres e responsabilidades estatistas, devia se tornar o novo “homem futurista”: um homem, como disse Marinetti, que não é humano (pois sem os elementos essenciais do humano – racionalidade, moralidade e memória – todos perfeitamente adequados para justificar a adesão de escravo ao ser-burguês – então não se é mais humano, mas outra coisa – algo monstruoso, algo rapaz, algo alegre). Marinetti disse que o Estado burguês corrói a energia vital, que ele se alimenta de animais de rebanho humanizados com vontades anestesiadas agrilhoados a pressuposições universalizadas de bondade e felicidade naturais. Mas Prezzolini lhe perguntaria hoje como ele fez então, que bem esse homem futurista poderia trazer à Revolta? Ele é descuidado demais, livre demais, e perigoso demais para ser de qualquer utilidade para homens tentando construir um Estado.

Squadrismo! Sim, ele lembrava, era isso: radicalismo manifesto, violência alegre, e a destruição das forças da ordem que tão perfeitamente conectavam mente, corpo e Estado. Pesarosamente, ele balançou a cabeça, ávido por esquecer as devastações de tal virilidade inútil, improvisada e descontrolada. A virilidade dos futuristas – o culto da velocidade, o desprezo pelas massas, a antipatia pela burocracia – haviam certamente infectado os primeiros dias da Revolução Fascista. Mas lutar para ser-outro, para ir além de deveres e responsabilidades abraçando o fluxo e o caosmos do homem em revolta, isso está muito longe de lutar pela honra e glória do Estado. Na primeira situação o homem morrerá sozinho, mas na outra – na luta que nós homens do Estado prometemos e exigimos – o homem heróico nunca morre. Ao invés, ele é tornado maior e mais significativo do que ele jamais poderia ser por conta própria.

Porém, estando aqui sob o fulgor da criação do Estado Fascista – o próprio símbolo da vitória! – Prezzolini começou a rir alto diante da memória do que um dia seria chamado a criação dos “dois fascismos”.

Mas então, no verão de 1921, foi o momento de verdade para a Revolta de Prezzolini. Seguiria ela a violência revolucionária desdenhosa dos futuristas e arditi rumo a um futuro incognoscível? Ou ela se voltaria para os lojistas burgueses e proprietários de terras que buscavam um Estado próspero e estável construído sobre as fundações de um glorioso passado nacional? Seria varrida na ação irrestrita dos homens em revolta, ou se tornaria A Revolução? Manteria seu núcleo como um conjunto de combatentes ousados e de elite – aqueles que ousaram, na verdade, se livrar de todos os deveres e responsabilidades burguesas, “cortar todas as raízes e não entender nada a não ser o prazer do perigo e do heroísmo quotidiano?” Ou abraçaria sua responsabilidade histórica para criar algo duradouro, algo imortal, como um Partido e Estado?

De fato ela o faria, e fez – se livrando tanto dos futuristas como dos ardito-squadristi em diversos expurgos de racionalidade política – e se erigiu como a apoteose da “hierarquia, tradição e autoridade”. Mas conforme a tempestade soprou, e os motores giratórios intoxicados com sua própria velocidade e som explodiram na segurança da calçada sob sua janela, Prezzolini se sentiu desconfortável, como se algo violento, cruel e fora das constrições da justiça estivesse se filtrando através das rachaduras em seu espaço santificado de trabalho.

Imediatamente ele sabia qual era a fonte: Marinetti. Blasfemador! Louco! O tolo que queria usar a violência para desestabilizar as forças subjetivas – e subjetivadoras – da forma burguesa de vida! E para que fim? Bem, Prezzolini sabia muito bem para que fim. Olhe para isso, ele gritou para sua alma enquanto agarrava a página:

“Assim, que venham os alegres incendiários com dedos queimados! Aqui estão eles! Aqui estão eles! Vão em frente! Incendeiem as prateleiras das bibliotecas! Invertam o curso dos canais para inundar os museus!… Peguem suas picaretas, machados e martelos, e derrubem, derrubem impiedosamente as cidades veneráveis!… vocês levantam objeções? Parem! Parem! Nós as conhecemos. Nós entendemos! A mente refinada nos diz que somos o ápice e continuação de nossos ancestrais – talvez! Vamos supor que sejamos! Que diferença isso faz? Nós não queremos ouvir!”

E assim Prezzolini escreveu uma marcha afortunada, um tomo reservado e penetrante em defesa da tradição e do esplendor passado que se encontrava sob ataque desses vadios irresponsáveis. Olhe novamente, seu cogito atormentado demandava; eles efetivamente chamavam a si mesmos “bárbaros – infratores recalcitrantes do Ideal!”

“O fascismo, se não estou errado”, ele começou a escrever, “deseja hierarquia, tradição, e observância da autoridade. O fascismo está contente quando invoca Roma e o passado clássico. O fascismo quer ficar dentro das linhas de pensamento que foram traçadas pelos grandes italianos e as grandes instituições italianas, incluindo o catolicismo. O futurismo, ao invés, é bastante oposto a isso. O futurismo é uma guerra contra a tradição; ele é uma luta contra museus, o classicismo e as honras escolásticas. Como isso pode ser reconciliado com o fascismo, que ao invés está tentando restaurar todos os nossos valores morais?”

Graças a Deus, ele murmurou. Graças a Deus! Graças a Deus nós tivemos a decência, a sensibilidade, e o dever de distanciar nossos gloriosos Partido e Estado desses lunáticos. A perspectiva havia tornado Prezzolini sábio, pois ele sabia que a revolução não tinha futuro. O futuro, como a história havia demonstrado, está com o Estado. Dane-se se o fascismo tivesse que se tornar uma contra-reforma que traísse as energias revolucionárias e o vitalismo crítico de seus membros fundadores: o Estado e nada além do Estado, como disse Mussolini – um “fato moral e espiritual!” Nós gerenciaremos adequadamente o domínio social, ele pensou desafiadoramente. Nós traremos continuidade e regularidade a tudo que está em fluxo. Nós tornaremos sedentário a tudo que flui livremente. Nós tornaremos homogêneo tudo que é diferente. Nós traremos lei e ordem, racionalidade e paz! Se as pessoas não estão à altura da tarefa, se eles se exasperam à imposição da soberania de seus governantes e chefes, se eles nutrem qualquer fidelidade pelos deveres e responsabilidades perante o Estado, então…que eles saiam e vão brincar com Marinetti!

Ele não compreende? Nós somos o Estado, nós somos a lei, e nós somos a ordem, santificados por Deus e por tratados internacionais! O que seus futuristas desejam ser? Fora! Fora do Estado! Eles não sabem? Não há nada fora – nós somos “o Logos, o rei-filósofo, a transcendência da Idéia, a interioridade do conceito, a república de mentes, o tribunal da razão, os burocratas do pensamento, o homem como legislador e sujeito,…a imagem interiorizada de uma ordem mundial!” Quando você abandonar isso, caro Marinetti – querido “traidor recalcitrante da Idéia”, para onde você vai?

À guerra, era a resposta de Marinetti. Apenas a guerra, ele dizia, pode criar as condições e ordenações condutíveis à revolução. E quando se é um homem sozinho – um homem em um bando, talvez – e você se encontra sem uma guerra, bem, então o que? Você pode criar as condições e ordenações de sua própria vida. Você “mata a luz do luar”, você “destrói tempo e espaço”, vivendo ao invés na “eterna e onipresente velocidade” – a velocidade da coragem e da agressão, de “palavras e pensamento-em-liberdade”, destruindo toda e qualquer prudência estagnante, o “utilitarismo, a covardia oportunista” e o ressentimento reativo que você costumava acreditar que justificavam seu élan vital. Você cria desordem – você vive sem tradição, sem dogma, incessantemente inventando novas maneiras de assombrar seus instintos burgueses, nutridos ao invés pela “nova sensibilidade” que irá decompor tudo que você sabe sobre beleza, grandeza, religiosidade, solenidade e cultivo.

Vida sem tradição! Prezzolini estava perplexo. Vida sem memória! Novamente ele imaginava se Marinetti e esses futuristas compreendiam as implicações de suas idéias. A memória, ele os lembraria, serve a um grande propósito, pois somente ela cria uma pessoa capaz de pagar dívidas; e a dívida é a base da civilização – pois de fato, como pode a civilização prosseguir sem que todos os tributos sociais, corporais sejam necessariamente pagos? E exatamente o que os futuristas pensam estar esquecendo? Qual é o propósito, digamos, de esquecer? Que responsabilidades, deveres e dívidas, devem eles esquecer? Eles dirão que estão esquecendo a preguiça, a lentidão e a sensibilidade feminina de modo a afirmar a vida como aceleração. Como Bergson eles querem fazer do tempo uma duração subjetiva e um amontoado de intensidades – uma velocidade carregando outras velocidades –

“Nossa vida deve sempre ser uma velocidade carregando outras velocidades: velocidade mental + velocidade do corpo + velocidade do veículo que leva o corpo + velocidade do elemento que carrega o veículo. Nós devemos deslocar o pensamento de sua estrada mental e colocá-la em uma material. A velocidade destrói as leis da gravidade, torna os valores do tempo e do espaço subjetivos… Quilômetros e horas não são universalmente os mesmos; para o homem em aceleração eles variam em extensão e duração… Ampliando a leveza. Vós haveis triunfado sobre a lei que força os homens a rastejarem… A gasolina é divina… A velocidade em uma linha reta é massiva, crua, impensada. A velocidade com e após uma curva é velocidade que se tornou ágil, adquiriu consciência”.

Pensamento e existência na produção de tempo como fluxos e afecções (+ e + e + e + …até que a vida irrompa qualquer tentativa de negar e estrangular seu potencial), extricando o próprio tempo de seu milieu natural e adequado como contenção universal da matéria.

Mas todos sabem não apenas que isso é loucura, mas também que isso é apenas o começo. Vejam como Marinetti dança com as sirenes de nossa perdição – com as próprias forças que trarão a lógica do progresso histórico a um fim – quando ele nos aconselha a “exaltar a vontade agressiva do homem, sem lembrança, e enfatizar ainda de novo a vacuidade ridícula da memória nostálgica, da história míope, e do passado que está morto”. E seu amigo Boccioni diz que o futurismo está aqui para destruir o passado de modo a criar um “vácuo povoado por primitivos e bárbaros” – tudo com uma sensibilidade anti-artística conectada e impelida apenas por movimentos rítmicos, planos, e linhas – sem a sublimidade de formas ideais e arquétipos.

Mas o que Boccioni pode estar querendo dizer com essa sugestão ridícula? Estaria ele tentando oferecer uma base de re-diferenciação para o homem indiferenciado? Mas já não avançamos e fomos além dessas noções pitorescas de um retorno ao primitivismo? Exatamente então Prezzolini se alarmou com um estrondo barulhento em meio ao estrépito da tempestade. Soava como o guincho de pneus de borracha girando fora de controle, lançando máquina e vida ao ar como uma flecha nomádica em fuga – au milieu, não fixada nem pelo arqueiro que a disparou, nem pelo alvo contra o qual foi disparada – dançando na direção do horizonte em um arco-íris flamejante de explosão e estilhaços de vidro e metal, as partículas de cada qual em conjunção com a outra, bem como qualquer corpo sobre o qual elas impactavam.

Para seu horror, a detonação foi seguida por um coro de vozes explicando a tempestade para um par de jovens vagabundos, “A vida tem sempre razão”, dizia, “Os paraísos artificiais com os quais vocês esperam assassiná-la são inúteis”. Ai de qualquer homem que sai de casa em tempos como esse, ele pensou; melhor morrer agora do que dar continuidade a esse risco. E com isso ele amaldiçoou seus ouvidos por ter partilhado da imprudência desses homens tolos, cada vez mais temeroso de que eles pudessem ligar sua querida e meiga alma ao que eles haviam ouvido. Ele se encolheu ainda mais, e decidiu que uma bebida poderia acalmar seus nervos.

E de qualquer maneira, ele percebeu conforme ele saboreava seu copo de leite quente, não era Boccioni um futurista? De todas as pessoas ele deveria saber melhor. E o que um “vácuo bárbaro” oferece que o Estado não oferece? Carlo Carrà nos deu um senso do que o vácuo bárbaro busca ao se distanciar do Estado: criação – compreender a vida em termos bastante removidos da forma puramente representacional do pensamento burocrático racional que ele chamava “ilustracionismo”. O ilustracionismo envolve um traçado dos potenciais da vida, sempre governada por tradições, convenções, e o Ideal que a tudo vê.

O que o futurismo propõe ao invés é um criacionismo ilimitado, em que pintores pintam som, movimento, e descobrem todas as qualidades afetivas que aguardam uma revolta nas quantidades de instintos humanos:

“…Palavras desancoradas, idéias ilimitadas, livres da escravidão da energia instintiva e das técnicas de viver a formas e idéias que castram tanto quanto criam. Fora do trabalho encontramos invenção. Fora das escolas encontramos livre pensamento. Fora del giorno conceitos, teorias, estimações e potenciais – para além do caminho estreito e reto que eles delineiam: um eco do refrão dos mortos vivos! …a normalidade funerária de pensar e ser no serviço de forças que demandam tão pouco de nós: a facilidade de crer e se submeter à banalidade e comunalidade – buscamos e demandamos de nós mesmos uma vida levada para fora dos limites”

Pintura fede, ele tinha que rir disso. Isso seria como legislar ou comandar revolução. Ele estava chocado consigo mesmo, já que por um momento horripilante ele se encontrou falando exatamente como eles! Mas sua incerteza trouxe sua mente de volta para seu trabalho. Como esses bárbaros futuristas planejavam criar alguma coisa, especialmente à luz da guerra de Marinetti contra a gramática e a convenção linguística, ele pensava. “Palavras-em-liberdade”, Marinetti dizia, solaparão e perturbarão os princípios codificadores da linguagem – princípios que moldam a consciência e a interação funcional com a realidade. Ele nos pede que abandonemos o uso do “Eu”, que antropomorfiza uma compreensão particularmente burguesa do sujeito, propondo ao invés um “retorno ao molecular” e uma compreensão das lascas e cacos de nossa subjetividade que portam as chaves para nossos potenciais revolucionários.

Ele nos pede “destruir a sintaxe e espalhar substantivos aleatoriamente, tal como eles nascem”, “abolir adjetivos e advérbios”, que forçam, e presumem, uma pausa no fluxo da experiência, e criam uma “tediosa unidade de tom”, que só existe na linguagem. Mais, ele sugere que verbos só sejam usados em sua forma infinitiva, de modo a criar uma elasticidade de relações (em contraste a uma escravidão do verbo movente e agente ao “Eu” parasitário) e “dar um senso da continuidade da vida e da elasticidade da intuição”.

Nessa luz, Prezzolini rapidamente percebeu que o que os futuristas estavam fazendo era perigoso e uma ameaça à vitória do Estado Fascista. O ser humano, é verdade, pode ser arrebanhado em vastos conglomerados e facilmente convencido de seus valores e propriedades universais. Mas apenas porque o homem pode tão prontamente viver em rebanho, seria esse seu potencial óptimo? Essa é a questão que Prezzolini agora descobria no coração dos manifestos futuristas. Com seus ataques à linguagem como uma máquina de automação comandando a interconexão e coordenação de seres para tarefas despóticas territorializantes que só servem aos mais servis entre o rebanho, os futuristas tentavam causar um curto-circuito nos laços do contrato social. Eles compreendiam que o organismo consciente deve ser compatível com o sistema social em que existe.

Mudanças nas modalidades de vida social – como vácuos bárbaros ou bandos – devem envolver uma mudança concomitante na consciência e na interação funcional com a existência. Atenção, processamento cognitivo, tomada de decisões, e expressão todas passam por constante mutação para manter sua associação com os aparatos interpretativos da modalidade coletiva particular. Compreendido ainda que nessa forma simplificada, vê-se muito claramente as implicações do Estado se apresentando como “a organização racional e razoável de uma comunidade”, com o “espírito interior ou moral do povo” como o princípio organizador de um “espírito absoluto universal harmônico”. O Estado justamente se torna o nexo do pensar correto, da razão pura, e do domínio pessoal. Se aqueles elos são rompidos, e não se pode mais perceber sentido, então deveres, dívidas e responsabilidades agrilhoando o homem a uma socialidade que faz de seus instintos uma zombaria não faz mais sentido. Desordem!

Nosso Pai no céu, gaguejou Prezzolini enquanto ele caminhava pela sala. Subitamente a tempestade pareceu trovejar com muito mais fúria. Nosso Pai, ele disse novamente, pelo menos se fossem coturnos em marcha o que eu ouço e não o zunido dissonante de aviões de guerra e geradores de energia falhando. Sua obra agora parecia ter a importância de uma Bula Papal. Esse arremessar o passado ao mar para ampliar nossa agilidade em se esquivar de barricadas – certamente essas barricadas, essas barreiras contra o caos são as chaves de nossa vitória! – só podem levar à ruína. Mas destruir as próprias bases da ordem e do pensar correto no presente é ainda mais egrégio. Homens desse tipo devem ser liderados – para seu próprio bem e para o bem da Revolta. Sim! Eles devem ser liderados ou eliminados.

Certamente isso é claro quando lemos em “Guerra, a Única Higiene do Mundo” de Marinetti, sobre seu desapontamento com o desarmamento da energia revolucionária quando ela é entregue aos líderes da Revola, que, como ele diz, estão “fatalmente interessados em preservar o status quo, em acalmar a violência, e opor cada desejo para aventura, risco e heroísmo”. Mas novamente, devemos repreender Marinetti por falhar em compreender a importância da prudência, do oportunismo e da construção de uma organização de massas de grande potencial político e social.

E quando dizemos que essa organização com apelo universal e dedicação à sabedoria e ordem deve ser imortal, o que Marinetti diz? Ele diz que os futuristas “amantes e defensores de instintos heróicos” sentem “apenas repugnância à idéia de buscar a imortalidade, pois no fundo isso não é mais que o sonho de mentes viciadas pela usura”.

Para ele e os outros, ele retornaria sua repugnância com juros! Ele sorriu diante dessa ironia, pois agora era ele quem tinha o ouvido do Duce. Talvez, ele pensou furiosamente, as circunstâncias inteiramente contingentes que alinhavam esses maníacos com a Revolta uma vez justificavam sua depredação cancerosa, mas eles não tinham papel a desempenhar no Estado. E assim ele retornou ao seu trabalho tantas vezes interrompido:

“O fascismo não pode aceitar o programa destrutivo do futurismo, e ao invés terá que restaurar os próprios valores que contrastam com o futurismo. A disciplina e hierarquia políticas são também disciplina e hierarquia literárias. As palavras são tornadas vazias quando hierarquias políticas são tornadas inúteis. O fascismo, se verdadeiramente deseja vencer essa batalha, tem que considerar o futurismo como já tendo sido absorvido pelo que poderia fornecer como estímulo, e tem que reprimi-lo no que ainda possa possuir de revolucionário, anticlássico e indomável”

E assim, enquanto Marinetti e seu bando alegre de revolucionários futuristas travavam uma guerra sem linhas de frente contra os partidos, valores, representações e poder do mundo burguês – trazendo uma tempestade de agressão e depredação incontroláveis a todos os salões consagrados que glorificavam o império do Último Homem, Giuseppe Prezzolini terminava sua obra, suas últimas frases entulhadas de defesas da hierarquia e da ordem, e “palavras em seu lugar adequado, obedecendo regras, e respeitando a natureza”. Ele então a enviou para a comissão governamental apropriada indicada para reformar a educação para sua aprovação e conselho iluminado.

Source: http://legio-victrix.blogspot.com/2014/04/mark-dyal-vida-tem-sempre-razao.html

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