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Gustave Le Bon

Gustave Le Bon, 1841–1931

1,488 words

Translations: English, German

Gustave Le Bon, Psychologie des foules

“A multidão é sempre intelectualmente inferior ao indivíduo isolado, mas do ponto de vista dos sentimentos e das ações que esses sentimentos provocam, a multidão pode, segundo as circunstâncias, ser melhor ou pior que o indivíduo. Tudo depende da natureza da sugestão à qual a multidão é exposta”.

Esse diagnóstico foi feito por um homem de estatura imponente e uma aparência irônica e severa, uma face suavemente desdenhosa, uma testa imensa, olhos penetrantes, e uma barba antiquada evocando os deuses da Renascença. Ele se chamava Gustave Le Bon. Ele nasceu em 1841 em Nogent-le-Rotrou.

Nascido de uma família de soldados e magistrados, de ascendência borgonhesa e bretão, Gustave Le Bon era um amigo de Théodole Ribot (Les maladies de la personnalité) e de Henri Poincaré (La science et l’hipothèse). Sua bibliografia, que é uma das mais importantes dos últimos dois séculos, é dominada por dois títulos: Psychologie des foules e L’é volution de la matière.

Um viajante infatigável, foram seus relatos de suas primeiras expedições (ao Norte da África, Índia, e Nepal) que primeiro atraíram atenção. “O ponto que permaneceu mais claramente fixo em minha mente”, ele escreveu em Les lois psychologiques de l’évolution des peuples, “é que cada povo possui uma constituição mental tão fixa quanto suas características anatômicas, uma constituição que é a fonte de seus sentimentos, pensamentos, instituições, crenças, e artes”.

Um precursor da psicologia social, ele era interessado tanto em etnografia quanto em antropologia, sociologia, filosofia da história, física, biologia, história das civilizações e doutrinas políticas, cartografia, e mesmo psicologia dos cavalos e equitação!

Um homem da ciência, vivendo sozinho em seu laboratório, em 1878 ele inventou o primeiro relógio capaz de rebobinar a si mesmo através das variações diárias em temperatura. Pouco depois, ele provou a existência da radioatividade. Muito antes de Einstein, ele demonstrou a falsidade do dogma da indestrutibilidade da matéria estabelecendo que matéria e energia são a mesma coisa sob aspectos diferentes (Mémoires de physique, L’évolution de la matière, La naissance et l’èvanouissement de la matière).

Em 1902, ele fundou a famosa Bibliothèque de Philosophe Scientifique, uma marca ainda publicada hoje por Flammarion.

Dedicado a Théodole Ribot, Psicologia da Multidão tanto estabeleceu seu autor como deu origem a um novo campo de estudo. Em 1929, o livro estava em sua 37ª edição. A idéia central de Psicologia da Multidão é que o indivíduo se torna outra pessoa ao se unir a uma multidão, uma “célula” cujo comportamente deixa de ser autônomo e que se subordina mais ou menos completamente ao grupo, quer permanentemente ou temporariamente, do qual ele é um dos constituintes.

A “Unidade Mental das Multidões”

Em um prefácio em geral desinteressante, Otto Klineberg, um professor na Sorbonne, relembra um dos princípios essenciais da psicologia da forma (Gestalttheorie): o todo é mais do que a simples soma de suas partes.

Como com a teoria dos todos, a multidão é portanto mais do que a mera soma dos indivíduos que a constituem. “É por essas razões”, escreve Le Bon, “que se vê júris dando vereditos que cada jurado individual desaprovaria, que assembléias parlamentares adotam leis e medidas que cada um de seus membros desaprovaria pessoalmente. Tomados separadamente, os homens da Convenção eram burgueses de hábitos pacíficos. Unidos em uma multidão, eles não hesitaram, sob a influência de alguns líderes, em enviar as mais manifestamente inocentes pessoas à guilhotina”.

A sugestão se torna exagerada ao ser recíproca. A multidão criminosa que assassinou de Launay, o governador da Bastilha em 14 de julho de 1789, consistiam majoritariamente de transeuntes desocupados, lojistas, e artesãos. Similarmente os massacres do Dia de São Bartolomeu e das Guerras Religiosas, as “tricoteuses” de 1793, as Communardas, etc.

Os mesmos excessos também podiam ser observados do outro lado: “A renúncia de todos os seus privilégios pela qual a nobreza votou na celebrada noite de 4 de agosto de 1789 jamais teria sido aceita por qualquer de seus membros tomados como indivíduos”.

Pode-se portanto enunciar uma “lei da unidade mental das multidões”, caracterizada pelo “desaparecimento da personalidade consciente e pela orientação de sentimentos e pensamentos na mesma direção”. “Nós entramos na era das multidões”, escreve Le Bon, que enfatiza as consequências da irrupção legal das massas na vida política. Com consequências perturbadoras – se é verdade que as “multidões não possuem poder para mais do que a destruição, seu domínio sempre representa um período de desordem”.

Barão Motono, um ex-Ministro das Relações Exteriores do Japão que traduziu Psicologia das Multidões ao japonês, escreveu: “Com o progesso da civilização, as raças, como os indivíduos de cada raça, tendem a se tornar cada vez mais diferenciados. Portanto não é em direção à igualdade que a humanidade avança, mas em direção a uma progressiva desigualdade”.

O próprio Le Bon também acreditava que “o fator racial deve ser colocado acima de todos os outros, pois por conta própria ele é muito mais importante do que todos os outros em determinar as idéias e crenças das multidões”.

Isso explica porque os traços da caráter manifestos pelas multidões, sendo governados pelo inconsciente, são “possuídos pela maioria dos indivíduos normais de uma raça praticamente em mesma medida”. A “multidão psicológica” assim age para revelar a alma coletiva, no sentido de Jung: “O heterogêneo é sobrepujado pelo homogêno, e as qualidades inconscientes predominam”.

O que explica a qualidade de curto prazo da ação das multidões: “As decisões de uma natureza geral feitas por uma assembléia de homens distintos, mas de especialidades diferentes, não são sensivelmente superiores às decisões que seriam tomadas por uma reunião de imbecis. Eles só podem reunir, em verdade, aquelas qualidades medíocres que todos possuem. Multidões acumulam, não inteligência, mas mediocridade”.

Tradições guiam o povo. Apenas as formas exteriores das tradições são modificadas, o que dá a ilusão de sociedades rompendo com seu passado. “Uma multidão latina”, nota Le Bon, “não importa quão revolucionária ou quão conservadora se supõe que seja, invariavelmente apelará ao Estado para realizar suas demandas. Ela sempre se distingue por uma tendência notável para a centralização e por uma inclinação, mais ou menos pronunciada, em favor de uma ditadura. Uma multidão inglesa ou americana, ao contrário, não reserva nada para o Estado, e apela apenas à iniciativa privada. Uma multidão francesa põe peso particular na igualdade e uma multidão inglesa na liberdade. Essas diferenças raciais explicam como é que há quase tantos tipos distintos de multidões como há de nações”.

Le Bon acrescenta: “O conjunto de características comuns impostas pelo meio e pela hereditariedade sobre todos os indivíduos de um povo constitui a alma de seu povo”.

Multidões são também intolerantes e “femininas” (“mas as mais femininas de todas”, diz Le Bon, “são as multidões latinas”). Entre elas, o instinto sempre vence sobre a razão. Inclinadas à simploriedade, a juízos excessivos, elas não toleram contradições. “Sempre prontas para se sublevar contra uma autoridade frágil, elas se curvam com servilidade diante de uma autoridade forte”.

Homens de Ação

Conhecer a arte de impressionar a imaginação das multidões é conhecer a arte de governá-las. “É sempre o lado maravilhoso e lendário dos eventos que mais especialmente assombra as multidões. Ademais, todos os grandes estadistas de cada era e cada país, incluindo os déspotas mais absolutos, consideraram a imaginação popular como a base de seu poder”.

Napoleão disse ao Conselho de Estado: “Foi tornando-me católico que eu dei fim à Guerra da Vendéia; tornando-me muçulmano que eu me estabeleci no Egito; tornando-me ultramontano que eu conquistei os padres na Itália”.

“O homem pode geralmente fazer mais do que ele crê, mas ele não sabe sempre o que pode fazer”. Os líderes das multidões revelam isso a ele. Os líderes das multidões não são homens de pensamento, mas homens de ação. Eles tem mais energia do que inteligência pura. Sua ascendência assume a forma de um grande desígnio que cataliza vontades e orienta instintos.

Idéias simples tornam a conquista das multidões mais fáceis, acima de tudo idéias que sejam ricas em promessas, entre as quais Le Bon cita “as idéias cristãs da Idade Média, as idéias democráticas do último século, as idéias socialistas de hoje”.

Georges Sorel, o autor de Réflexions sur la violence, escreveu: “Se a psicologia algum diz for bem sucedida, entre nós, em ser anexada ao domínio do conhecimento que um homem deve possuir para ter o direito de se considerar verdadeiramente cultivado, nós deveremos o resultado aos esforços perseverantes de Gustave Le Bon”.

Psicologia das Multidões já foi traduzido em uma dúzia de línguas, incluindo russo, turco, japonês, e árabe. Anunciando as grandes convulsões revolucionárias do século recente, de fato os desenvolvimentos mais recentes da guerra psicológica, ela foi na década de 1920 a leitura de cabeceira dos oficiais da École Supérieur de Guerre, e entre eles, em 1922, do jovem capitão De Gaulle. O obscurantismo durkheimiano, que desde então tem oprimido a sociologia francesa, foi incapaz de ocultar sua importância.

O livro tem 82 anos de idade. Ele não envelheceu um único dia.

 

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